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Declaração de guerra

Olavo de Carvalho
Época, 20 de janeiro de 2001

 

O fórum esquerdista no Rio Grande não é contra a Nova Ordem Mundial, é contra o Brasil

 

Quando você discute com um comunista, ele exige, antes de tudo, que você aceite a premissa de que ele defende os pobres e você os ricos. Se você a aceita ou, por desatenção e comodismo, deixa de contestá-la com veemência, ele passa a tratá-lo com toda a delicadeza, porque sabe que aos olhos da platéia você já está liquidado e que quanto mais polido ele for daí por diante mais somará, ao prestígio de defensor dos oprimidos, a boa imagem de democrata respeitador do adversário moribundo.

Se, em vez disso, você mexe em alguns pontos doloridos da má consciência esquerdista – sua aliança de um século com os tubarões do monopolismo capitalista, a exploração maciça do trabalho escravo para financiar o movimento comunista internacional, a corrupção de milhares de jornalistas e políticos pelas verbas descomunais da KGB –, aí ele resolve o problema dizendo que você partiu para os ataques pessoais, que você é um fascista ou que não se fazem mais direitistas educados como antigamente.

Já sei, portanto, o que vão me responder quando eu disser que o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, é uma gigantesca mobilização de verbas e forças estrangeiras para um ataque direto à soberania nacional, disfarçado em defesa de nossos interesses na arena econômica do mundo.

Mas nem sempre essa gente responde. O prefeito petista de Porto Alegre, por exemplo, não respondeu nada quando meses atrás, num debate, eu lhe disse que, com toda a sua aparente defesa de nossa integridade territorial, seu partido, se chegar ao poder, não somente entregará a Amazônia como ainda poderá ceder mais uns Estados, de quebra, pela simples razão de que tudo isso já foi pago. Já foi pago à esquerda nacional, hoje maciçamente financiada por empresas e ONGs tentaculares a serviço dos mesmos interesses que ela finge combater.

O silêncio do prefeito, no entanto, foi menos eloqüente que as recentes declarações do vice-governador do Rio Grande, Miguel Rossetto, segundo o qual toda a oratória canina que o FSM vai despejar sobre o capitalismo internacional não afetará em nada as boas relações do governo do Estado com o Banco Mundial. É evidente: o festival de esquerdismo na capital gaúcha não pode arranhar no mais mínimo que seja os interesses do monopolismo global. Pode apenas destruir por completo o estado de direito no Brasil, criando e legitimando o precedente escandaloso do apoio oficial à pregação genocida dos narcoterroristas colombianos.

Mas esse precedente não é o único: ao participar despudoradamente da sustentação logística de um empreendimento de propaganda ideológica ostensiva, o governo gaúcho derrubará, de um só golpe, a legislação eleitoral existente, sob os olhos complacentes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário federais, que, temendo as reações da mídia cúmplice, não ousarão punir a arrogante ilegalidade explícita dessa declaração de guerra revolucionária.

Apresentar o fórum como uma alternativa aos debates capitalistas de Davos é apenas um truque publicitário, operado com o auxílio do diretor do jornal Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, célebre propagandista empenhado em, sob o pretexto de apoio aos nacionalismos, fortalecer o braço estatista, centralizador e burocrático da Nova Ordem Mundial, em detrimento, definitivo ou provisório, de seu braço privatista e neoliberal.

O fórum não sonha em alterar no que quer que seja a Nova Ordem Mundial. Sonha apenas em mudar o lugar do Brasil dentro dela, transformando-o, de uma próspera nação capitalista apta a disputar uma posição de liderança, numa Colômbia devastada e eternamente cabisbaixa.